quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

CABRA CEGA - Sheila Ribeiro Mendonça



Clara e Gustavo se conhecem em um clube de Curitiba quando ela estava pensando em viajar, antes de começar a faculdade, e então se apaixonam e casam. Assim, a vida de Clara muda rapidamente. A mudança é radical, pois Gustavo se revela um homem agressivo, ciumento, possessivo, violento, ardiloso e perspicaz, com isso transformando a vida dela numa constante surpresa e esconde-esconde. Não somente de comportamentos, como também de cidades. Com o intuito de não criar laços com ninguém e, principalmente, de não deixar que a família de Clara saiba onde ela está, você vai acompanhar Cabra Cega sem ter a certeza de até quando aquela cidade fará parte dos planos de Gustavo. Em Cabra Cega acompanhamos os escondidos.




O autor - Sheila Ribeiro Mendonça
Sou jornalista há 15 anos e justamente escolhi esta profissão por conta da minha enorme paixão pela escrita. Tudo desde de pequena me inspira, claro que com o passar dos anos fui evoluindo com as palavras e sensações. E foi assim que no início da idade adulta escrevi o meu primeiro romance. A escrita definitivamente é o ar que eu respiro. Algo que me move e muitas vezes é até maior do que eu mesma, assim fazendo com que em qualquer lugar e situação que eu me encontre pegue um papel e caneta e deixe a inspiração que chega fluir em palavras, sem a pretensão de transformar em um texto perfeito, apenas escrevo e sinto um enorme prazer com isso. Escrevo simplesmente com o coração e com a inspiração que Deus me dá. E foi assim que escrevi o meu primeiro romance na certeza de que sigo no caminho da arte de escrever.







E o que a Josy achou?



Já tinha algum tempo que eu queria ler Cabra Cega. Os motivos iam desde a simpatia que eu tenho pelos textos da autora (costumo ler as coisas que ela posta no face, no blog, etc) até a curiosidade pelo tema, pouco explorado aqui no Brasil.

Apesar de sermos um país com um número gigantesco de vítimas de violência domestica, são poucos os autores que se sentem capacitados para escrever sobre tal. Sheila demonstrar estar entre os autores que podem lidar com o tema.

Por si só Cabra Cega já é um livro polêmico. Mas, a forma como ele é narrado pode aumentar ainda mais isso. O livro não tem diálogos, apenas uma narração em terceira pessoa. Assusta, não é? Mas, garanto que consegue trazer proximidade entre o leitor e a – pobre – protagonista.

Gustavo e Clara eram um casal aparentemente normal, mas que mantinham algumas características estranhas, fazendo com que ambos se tornassem pessoas que despertavam certa curiosidade onde moravam. Trancada em casa, protegida por cortinas e proibida de falar com os vizinhos, Clara é uma jovem que sofre pela obsessão do marido, alguém que anda na corda bamba entre a psicopatia e a maldade. 

De cara, percebemos que dificilmente a mulher (a vítima) sabe onde está se metendo. Tanto na vida real quanto na história. Em Cabra Cega, o agressor era um estudante de medicina e frequentava um clube familiar. Ou seja, era acima de qualquer desconfiança/suspeita. Mas Sheila é clara em narrar que todo maluco tem algum ponto que se entrega. No caso de Gustavo, ele simplesmente não tinha amigos nem família. Mesmo no casamento, não havia ninguém “da parte dele”. 

“Ah” pensamos “se Clara tivesse percebido isso de cara, não teria passado por nenhum dos seus problemas”. Mas, tanto no livro quanto na vida, a maioria das mulheres não tem coragem ou capacidade de distinguir a encenação dos homens violentos. Tornam-se vitimas não só desses homens, mas também de si mesmas. Talvez pelo lado financeiro, ou pela dependência psicológica, o fato é que muitas mulheres sentem medo de morrer caso larguem os agressores ou sentem pavor de envelhecer sem um macho. Triste fim de quem se permite ser alienada pela sociedade que só da o valor para a mulher que tem um homem do lado. Mas, isso é discussão das grandes pra outro momento.

É meio chocante o fato de que a protagonista Clara é completamente submissa e covarde, sem voz de se levantar. Já li algumas resenhas de pessoas revoltadas com a Sheila, como se a autora fosse culpada pela apatia da personagem, sem saber que qualquer pesquisa sobre o tema prova que a maioria das mulheres vítima de namorados/maridos/companheiros são o retrato fiel de Clara. 

E culpar a família? É complicado se envolver. Isso me lembra duma história que a minha mãe conta de quando estava grávida de mim.

Aos sete meses de gravidez, a vizinha estava apanhando do marido, e minha mãe resolveu se meter. Ficou tão nervosa, que teve uma hemorragia e foi levada as pressas para o hospital.  Graças a Deus, não me perdeu (não estaria aqui resenhando kkk), mas ao voltar pra casa depois de uma temporada muito difícil no hospital, encontrou a vizinha e o marido aos beijos no portão. 

Isso prova o quê? Que Deus dá a vida pra cada um cuidar da sua. 

Quem armou a própria cama foi Clara. Ela fez todas as vontades do marido, submetendo-se a personalidade doentia. Mesmo nas vezes que a família (especialmente a irmã), fazia menção de se envolver e defendê-la, a personagem abria seus braços para a apatia, aceitando seu destino. Mesmo sendo um livro curto, a trajetória da história é a busca de Clara em, mais que lutar contra Gustavo, lutar contra si mesma.

Não vou dar spoilers, é imperdoável, mas gostei de saber que a personagem, até o final da obra, aprendeu seu valor.

Indico? Com certeza. É um bom livro de estreia o da Sheila, corajosa num país de mesmices.

2 comentários:

She disse...

Que resenha linda, estou emocionada com a sua resenha. A sua opinião era uma das que eu mais queria saber, ela realmente era muito importante pra mim e confesso que você me deixou feliz. Especialmente com a forma cuidadosa que conduziu ao falar de como essas mulheres se sentem. É um assunto delicado e que temos que ter cuidado ao abordar porque ele é muito particular pra cada mulher e ao mesmo tempo igual para todas, nem que seja em um período dessa agressão. Muito obrigada, eu amei a sua resenha.
Beijo, beijo!
She

Rebecca Ribeiro disse...

Adorei o que li, e foi exatamente por comentários como esses que ando agora com Cabra Cega dentro da bolsa agora. Sou péssima com memória e se deixar eu preciso reler sempre para que possa enxergar no livro tudo o que todos estão enxergando. Virou um ritual.


Prima, sucesso!
Josiane, parabéns pela resenha.. aguçou meu apetite pela leitura e por esse mundo onde autores conversam entre si de maneira simples sem desmerecer ninguém.
Coração para as duas! <3<3